Durante décadas, a narrativa dominante foi clara: a Europa ficou para trás na corrida da internet. As grandes plataformas que moldaram a economia digital — Google, Amazon, Apple, Meta ou Microsoft — nasceram nos Estados Unidos, enquanto a China consolidou o segundo grande polo tecnológico global. No entanto, a evolução recente do ecossistema de inovação sugere um cenário diferente. A deep tech europeia pode abrir uma nova fase de liderança tecnológica baseada na ciência, na engenharia e na transformação industrial.
A expressão deep tech europeia refere-se a tecnologias assentes em investigação científica e engenharia avançada, frequentemente desenvolvidas ao longo de anos em universidades ou centros de investigação. Inclui áreas como biotecnologia, energia avançada, robótica, espaço e inteligência artificial aplicada à indústria.
Segundo o relatório European Dynamism, produzido pela plataforma tecnológica Sifted em parceria com o fundo de capital de risco redalpine, existem seis setores onde a Europa pode afirmar liderança tecnológica: inteligência artificial aplicada às empresas, saúde digital, novas energias, espaço, biotecnologia e robótica.
A tese central do estudo é que a vantagem europeia não reside na criação de plataformas digitais globais, mas na capacidade de transformar conhecimento científico em inovação industrial.
A vantagem científica europeia
Ao contrário do que aconteceu na primeira vaga da internet, a Europa possui vantagens estruturais nas tecnologias baseadas em ciência. O continente concentra universidades de investigação altamente qualificadas, centros científicos especializados e uma forte tradição industrial.
Este contexto tem permitido o surgimento de startups tecnológicas em áreas de elevada complexidade científica. Empresas ligadas à fusão nuclear, à robótica médica ou à inteligência artificial aplicada à indústria começam a atrair investimento relevante e a competir à escala global.
O modelo de crescimento é diferente do que dominou a economia digital nas últimas décadas. Em vez de plataformas que crescem rapidamente com base em redes de utilizadores, estas empresas dependem de investigação prolongada, desenvolvimento tecnológico profundo e ciclos de inovação mais longos.
O paradoxo das startups europeias
Apesar deste potencial, o ecossistema tecnológico europeu enfrenta um paradoxo conhecido: a Europa cria startups inovadoras, mas muitas acabam por escalar fora do continente.
Uma parte significativa das empresas tecnológicas europeias que atingem grande dimensão acaba por transferir operações ou financiamento para os Estados Unidos, onde os mercados de capital são mais profundos e o acesso a investimento de grande escala é mais fácil.
Este fenómeno ajuda a explicar por que razão a Europa continua a ter uma presença limitada entre as maiores empresas tecnológicas globais, apesar da vitalidade do seu ecossistema empreendedor.
O novo mapa tecnológico
A emergência da deep tech europeia pode, contudo, alterar este equilíbrio. Tecnologias como energia avançada, robótica industrial ou biotecnologia exigem capacidades científicas e industriais que não dependem apenas da escala das plataformas digitais.
Nestes domínios, a proximidade entre universidades, centros de investigação e indústria torna-se um fator decisivo. É precisamente este modelo de inovação que caracteriza grande parte da economia europeia.
Ao mesmo tempo, o aumento da importância estratégica de setores como energia, espaço ou saúde está a reforçar o papel das tecnologias baseadas em ciência na competição económica global.
A próxima vaga tecnológica
A questão central para a próxima década não será apenas onde nascerão as novas startups tecnológicas, mas onde serão desenvolvidas as plataformas industriais do futuro.
Se a primeira vaga da economia digital foi dominada por empresas da internet, a próxima poderá ser liderada por organizações capazes de transformar investigação científica em sistemas tecnológicos complexos.
Nesse cenário, a deep tech europeia pode representar uma oportunidade estratégica para o continente. Não porque a Europa tenha encontrado uma forma de replicar o modelo do Vale do Silício, mas porque a próxima vaga de inovação poderá depender precisamente das competências científicas, industriais e de engenharia que o continente desenvolveu ao longo de décadas.