Economia portuguesa dá sinais contraditórios, com menor confiança, energia cara e resistência na construção e comércio.
O Barómetro CIP/ISEG aponta para uma revisão em baixa das perspetivas de crescimento em 2026, num contexto de queda da confiança dos consumidores, pressão energética e sinais positivos na construção e no comércio.
A economia portuguesa entrou no segundo trimestre de 2026 com sinais contraditórios. O
Barómetro de Conjuntura Económica CIP/ISEG de maio aponta para uma revisão em baixa das perspetivas de crescimento, num enquadramento externo marcado pela subida dos preços da energia e das matérias-primas, mas também identifica sinais positivos em setores como a construção, o comércio a retalho e o setor automóvel.
De acordo com o Barómetro, a previsão para o crescimento da economia portuguesa em 2026 situa-se agora num intervalo entre 1,5% e 1,8%, com uma estimativa central de 1,7%. A revisão reflete um contexto internacional mais desfavorável, associado à persistência de preços elevados no petróleo, no gás natural e em várias matérias-primas, que pode penalizar a atividade económica ao longo do ano.
O documento assinala que os dados disponíveis para abril oferecem uma leitura “caracterizada por alguma ambiguidade”. A evolução negativa dos indicadores de clima económico ainda não é totalmente acompanhada pelos indicadores de atividade, sobretudo nos dados setoriais já conhecidos. No entanto, a confiança dos consumidores continuou a cair pelo terceiro mês consecutivo, atingindo o valor mais baixo desde novembro de 2023.
Na indústria transformadora, o indicador de confiança voltou a evoluir negativamente em abril, depois de uma recuperação da produção e do volume de negócios em março. Também nos serviços se observou uma deterioração das perspetivas das empresas. Em sentido contrário, os indicadores de confiança da construção e obras públicas e do comércio a retalho melhoraram, contribuindo para uma ligeira recuperação do indicador de clima económico divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística.
A construção surge como um dos setores com melhor desempenho recente. Em abril, as vendas de cimento cresceram 17,9% em termos homólogos, depois de uma subida de 44,5% em março. Já o Índice de Produção na Construção e Obras Públicas registou, em março, um crescimento homólogo de 6,2%, o valor mais expressivo desde julho de 2023.
Também o comércio apresenta sinais de resistência. Em março, o Índice de Volume de Negócios no Comércio a Retalho cresceu 5,5% em termos homólogos. No setor automóvel, o número de ligeiros de passageiros comercializados aumentou 15,1% em abril, enquanto os ligeiros de mercadorias cresceram 7,7%.
Para
Rafael Alves Rocha, diretor-geral da CIP, as perspetivas para a economia portuguesa acompanham a tendência de revisão em baixa observada noutras economias europeias. “Para a totalidade do ano de 2026, é natural que as perspetivas para o crescimento da economia portuguesa acompanhem a tendência de revisão em baixa observada na generalidade das economias europeias, uma vez que persiste a alta do petróleo, do gás natural e de diversas matérias-primas”, afirma.
O responsável alerta ainda para o risco de uma subida das taxas de juro diretoras do Banco Central Europeu. “A verificar-se este aumento das taxas de juro, ele agravará ainda mais o impacto negativo do choque energético na economia”, acrescenta Rafael Alves Rocha.
Como fator de compensação, o Barómetro destaca a fase final de execução do Programa de Recuperação e Resiliência. A CIP/ISEG considera que o reforço do investimento, já observado no primeiro trimestre, poderá manter-se ao longo do ano e contribuir para sustentar o crescimento da economia portuguesa, caso a execução do PRR decorra ao ritmo previsto.