Europa aposta em deeptech para competir com EUA e China, segundo relatório Redalpine-Sifted sobre o futuro estratégico da inovação tecnológica europeia.
Num momento em que a inteligência artificial concentra a maior parte do capital de risco europeu, investidores e fundadores começam a defender uma nova tese estratégica: a Europa não deve tentar replicar Silicon Valley, mas liderar nos setores onde ciência, engenharia e indústria pesada criam vantagens mais difíceis de copiar.
Durante mais de duas décadas, o debate sobre inovação europeia foi marcado pela comparação com os Estados Unidos. A questão parecia sempre a mesma: porque falha a Europa em produzir gigantes tecnológicos à escala de Silicon Valley? Mas um novo consenso começa a emergir entre investidores e operadores do ecossistema europeu. Em vez de competir diretamente no modelo tradicional de software escalável e crescimento acelerado, a Europa poderá encontrar a sua vantagem competitiva precisamente nas áreas onde a complexidade técnica e científica cria barreiras de entrada mais profundas.
Essa é a principal conclusão do mais recente European Dynamism Report, publicado pela
Redalpine em parceria com a
Sifted, que identifica seis áreas onde o continente poderá assumir liderança global: inteligência empresarial, saúde digital, energia, espaço, biotecnologia e robótica.
Da lógica SaaS à lógica industrial
Segundo o relatório, o mercado tecnológico europeu está a afastar-se progressivamente da lógica dominante da última década, centrada em software SaaS e plataformas digitais, para privilegiar empresas assentes na interseção entre software e ciência aplicada.
“Estamos a regressar às raízes do venture capital, financiando inovação real em vez de apenas mais uma empresa SaaS”, afirma Sebastian Becker, general partner da Redalpine, citado no relatório.
A tese parte de uma leitura pragmática do novo contexto competitivo. Com ferramentas de IA generativa a reduzirem drasticamente as barreiras técnicas para desenvolver software, o simples domínio tecnológico deixou de ser suficiente para garantir diferenciação sustentável. No entender dos autores, o verdadeiro “moat” das empresas tecnológicas do futuro estará cada vez mais na integração profunda com workflows industriais, no acesso a dados proprietários e na especialização operacional.
A vantagem estrutural europeia
O argumento central da Redalpine é que a Europa possui vantagens naturais precisamente nos setores onde esses fatores pesam mais.
O relatório sublinha que o continente continua a destacar-se pela densidade de investigação científica, pela ligação entre universidades e indústria e pela tradição de engenharia de precisão. Segundo os dados citados, 76% da investigação corporativa na União Europeia envolve parceiros universitários, enquanto a Europa mantém liderança global em produção científica nas áreas de life sciences e medicina.
Essa base estrutural poderá favorecer o crescimento de empresas em segmentos mais exigentes tecnologicamente, como energia de fusão, biotecnologia computacional, automação industrial e robótica avançada — áreas em que rapidez comercial e marketing contam menos do que profundidade técnica, talento científico e capacidade de integração de sistemas complexos.
Soberania tecnológica como catalisador
A mudança de posicionamento europeu não responde apenas a razões económicas. Surge também num contexto de crescente preocupação com soberania tecnológica.
O relatório nota que o continente procura reduzir dependências externas em áreas críticas, desde cloud computing e inteligência artificial até infraestruturas energéticas e espaciais. Essa tendência tem vindo a reforçar o interesse por setores considerados estratégicos para autonomia industrial e resiliência geopolítica.
“À medida que a soberania tecnológica se torna prioridade, estas qualidades tornam-se uma verdadeira vantagem competitiva”, defendem os autores.
Neste enquadramento, o deeptech deixa de ser apenas uma aposta de inovação e passa a ser visto como instrumento de política económica e estratégica.
O desafio continua a ser escalar
Apesar do otimismo, o relatório reconhece que a Europa ainda enfrenta limitações significativas. Embora quase um quarto dos fundadores de unicórnios mundiais sejam europeus de origem, apenas 6% do valor global desses unicórnios é capturado na Europa, em parte porque muitos acabam por escalar ou transferir operações para os Estados Unidos.
Para a Redalpine, o próximo desafio do ecossistema europeu já não é provar que consegue criar startups relevantes, mas demonstrar que consegue transformá-las em empresas geracionais.
“Agora o desafio é maior: construir empresas tecnológicas verdadeiramente geracionais”, afirma Luciana Lixandru, partner da Sequoia Capital, também citada no estudo.
Mais do que seguir tendências
A mensagem implícita do relatório é clara: a próxima fase da tecnologia europeia poderá depender menos de seguir tendências globais e mais de apostar em áreas onde o continente possui vantagens estruturais próprias.
Num mercado cada vez mais saturado de software commoditizado e competição baseada em velocidade, a Europa parece querer apostar numa nova identidade tecnológica — menos centrada em copiar Silicon Valley e mais focada em construir inovação onde profundidade científica, capacidade industrial e paciência estratégica ainda fazem a diferença.