Execução da inteligência artificial nas empresas falha: 42% não atingem metas e persistem lacunas entre ambição e resultados.
Apesar da crescente adoção de inteligência artificial, muitas empresas continuam sem conseguir traduzir essa tecnologia em crescimento efetivo. Para João Valadares, partner da Bain & Company, “existe um gap claro entre ambição e execução”, num contexto de volatilidade que deixou de ser conjuntural para se tornar estrutural.
A execução da inteligência artificial nas empresas continua a revelar-se o principal bloqueio ao crescimento, apesar da sua adoção generalizada. João Valadares, partner da Bain & Company, afirma que “existe um gap claro entre ambição e execução”, num contexto em que 42% das empresas falharam metas de receita em 2025, segundo dados do relatório
B2B Growth Agenda 2026.
Os dados indicam uma deterioração consistente do desempenho: a percentagem de empresas que não atingiram os objetivos de crescimento subiu de 33% em 2023 para 32% em 2024 e atingiu 42% em 2025. Esta evolução sugere não apenas um choque conjuntural, mas uma dificuldade estrutural na adaptação dos modelos de negócio.
Segundo João Valadares, partner da Bain & Company, “a volatilidade deixou de ser conjuntural e passou a ser estrutural”, obrigando as empresas a reverem os seus modelos comerciais e operacionais. A pressão não resulta apenas da instabilidade geopolítica, mas também da velocidade de transformação tecnológica, que expõe fragilidades na execução.
A leitura central é clara: a ambição estratégica — frequentemente impulsionada pela inteligência artificial — está a avançar mais rapidamente do que a capacidade das organizações para a concretizar.
A ilusão da adoção generalizada da IA
Embora cerca de 90% das empresas já utilizem soluções de inteligência artificial, a maioria não consegue escalar o seu impacto. Aproximadamente 60% das organizações admitem não dispor de infraestruturas de dados e tecnologia suficientemente robustas para integrar a IA de forma transversal.
Este desfasamento entre adoção e impacto traduz-se em resultados limitados. As empresas com melhor desempenho distinguem-se precisamente pela integração da IA nos processos comerciais do dia a dia, conseguindo duplicar o crescimento de receitas associado a esta tecnologia e alcançar níveis de eficiência superiores à média.
João Valadares sintetiza esta diferença ao afirmar que “a experimentação isolada não gera resultados”. A criação de valor exige integração operacional, simplificação de processos e alinhamento estratégico — três dimensões onde muitas organizações continuam a falhar.
Modelos comerciais sob pressão num contexto volátil
O impacto desta incapacidade de execução varia entre setores, mas segue um padrão comum: modelos comerciais desajustados a um ambiente mais incerto e competitivo.
Na tecnologia, media e telecomunicações, a pressão centra-se na aquisição e retenção de clientes. No setor bancário, a prioridade recai sobre a produtividade comercial e a modernização das capacidades de go-to-market. Já na indústria e nos serviços, intensificam-se as pressões operacionais ao longo das cadeias de valor, refletindo custos mais elevados e maior complexidade.
Em todos os casos, a inteligência artificial surge como um potencial acelerador — mas apenas para as organizações que conseguem ultrapassar a fase experimental e integrá-la na operação.
Da promessa tecnológica à disciplina estratégica
O contraste entre otimismo e desempenho é outro dos sinais relevantes. Apesar dos resultados de 2025, cerca de 91% dos executivos mantêm confiança no cumprimento das metas para 2026, antecipando um crescimento de receitas significativamente superior.
Este otimismo pode refletir confiança nas ferramentas disponíveis, mas também evidencia um risco recorrente: a sobrevalorização da tecnologia face à exigência da execução.
A execução da inteligência artificial nas empresas exige, neste contexto, uma mudança de foco. Mais do que investir em novas soluções, o desafio passa por disciplinar a sua implementação, alinhar processos e redefinir prioridades comerciais.
O verdadeiro diferencial competitivo não está na adoção da tecnologia, mas na capacidade de a transformar em resultados mensuráveis.