“Job hugging” marca nova fase do mercado de trabalho, com trabalhadores a ficar nas empresas, mas atentos a novas oportunidades.
A maioria dos trabalhadores quer manter-se na empresa onde está, mas sem fechar a porta a novas oportunidades, num padrão que está a redefinir a relação entre empresas e talento. A tendência, designada “job hugging”, é destacada no
Global Talent Barometer 2026 do ManpowerGroup.
De acordo com o estudo, 64% dos trabalhadores afirmam querer permanecer na organização onde trabalham atualmente, mas 60% continuam atentos ao mercado. Este comportamento revela uma mudança face à fase anterior de elevada mobilidade laboral, marcada pela chamada “Great Resignation”, indicando uma permanência motivada mais pela prudência do que pela lealdade.
Segundo o Global Talent Barometer 2026, baseado em respostas de 13.918 trabalhadores em 19 países, esta nova realidade reflete um contexto de maior incerteza económica, aceleração tecnológica e crescente adoção de inteligência artificial, fatores que tornam a mudança de emprego uma decisão mais arriscada.
“O job hugging não é sinónimo de resignação. É uma resposta a um contexto de maior incerteza económica e tecnológica, em que a mudança deixou de ser apenas uma questão de ambição e passou também a ser uma decisão de risco”, afirma Daniela Lourenço, Brand Lead do ManpowerGroup.
Para as empresas, este cenário cria um desafio distinto: transformar retenção passiva em compromisso efetivo. A mesma responsável sublinha que a permanência só se traduz em fidelização real quando as organizações conseguem responder às expectativas dos colaboradores em termos de desenvolvimento e progressão. “Para poderem fidelizar realmente os profissionais, precisam de lhes dar razões claras para querer ficar”, acrescenta.
O estudo identifica um desalinhamento crescente entre a transformação tecnológica e a evolução das competências. Apesar da adoção acelerada de inteligência artificial nas organizações, a confiança dos trabalhadores na sua utilização está a diminuir. Mais de metade dos profissionais não recebeu formação recente (56%) nem mentoria (57%), evidenciando um défice na preparação para novas exigências do mercado de trabalho.
Neste contexto, o ManpowerGroup defende que as empresas devem reforçar as suas estratégias de desenvolvimento interno, nomeadamente através de programas de formação, maior transparência nos percursos de carreira e oportunidades de mobilidade interna, de forma a alinhar expectativas e reter talento de forma sustentável.
A evolução para um modelo de permanência cautelosa sugere que o mercado de trabalho entrou numa nova fase, em que a estabilidade voltou a ganhar peso, mas sem eliminar a procura por melhores condições, colocando maior pressão sobre as organizações para criar propostas de valor mais consistentes e diferenciadoras.