Licenciatura perde peso no recrutamento com avanço da IA e empresas privilegiam competências práticas e experiência.
A licenciatura perde peso no recrutamento com avanço da IA, num contexto em que as empresas passam a valorizar cada vez mais competências práticas e capacidade de gerar impacto imediato. A tendência é evidenciada por um
relatório da SOFTSWISS, em parceria com a Pentasia, que aponta para uma transformação estrutural no mercado de trabalho qualificado.
Segundo o estudo, até 60% dos novos empregos poderão deixar de exigir formação universitária tradicional até 2030. A análise, baseada em dados do LinkedIn, inquéritos a empresas e tendências de contratação no setor de iGaming em 2025, sugere uma reconfiguração dos critérios de seleção, com foco crescente na experiência comprovada e na execução.
Do diploma à capacidade de execução
A mudança não é apenas semântica. Reflete uma alteração no próprio modelo económico das empresas, que deixam de privilegiar a formação potencial para se concentrarem no retorno imediato.
De acordo com Alastair Cleland, Managing Director da Pentasia, “as funções de entrada estão a ser despriorizadas em favor de perfis intermédios e seniores com competências avançadas”, acrescentando que a inteligência artificial “está a transformar os empregos de entrada ao automatizar tarefas rotineiras, como introdução de dados, programação básica e funções de pesquisa”.
Esta evolução traduz-se numa redução da contratação de perfis juniores e numa maior exigência sobre os candidatos, que passam a ser avaliados pela sua capacidade de criar valor desde as primeiras semanas.
Inteligência artificial redefine o ponto de entrada
O impacto da IA vai além da automação. Está a redefinir o próprio ponto de entrada no mercado de trabalho.
Funções tradicionalmente associadas ao início de carreira — muitas vezes desempenhadas por recém-licenciados — estão a ser absorvidas por sistemas automatizados. Em paralelo, cresce a procura por competências analíticas, de supervisão e de tomada de decisão, áreas onde a intervenção humana continua crítica.
Denis Romanovskiy, Chief AI Officer da SOFTSWISS, confirma esta mudança: “A expectativa é que um colaborador comece a criar valor em poucas semanas. A capacidade de usar ferramentas de IA já é considerada um dado adquirido e nem sequer é discutida”.
O resultado é um desfasamento crescente entre o perfil típico de entrada no mercado e as necessidades reais das empresas.
Mercado português expõe o desalinhamento
Em Portugal, os dados disponíveis apontam para um desalinhamento crescente entre qualificação académica e necessidades do mercado. Apesar de uma taxa de desemprego global de cerca de 6,0% em 2025 e de 5,6% em janeiro de 2026, segundo dados da OCDE, os jovens continuam a enfrentar maiores dificuldades de inserção profissional.
Em paralelo, indicadores do Eurostat mostram níveis elevados de sobrerqualificação, com uma parte significativa de licenciados a desempenhar funções abaixo do seu nível de formação. Ao mesmo tempo, estudos de mercado indicam dificuldades persistentes de recrutamento: mais de 70% das empresas em Portugal reportam escassez de talento, sobretudo em áreas tecnológicas e técnicas.
Este aparente paradoxo — excesso de qualificação formal e escassez de competências aplicáveis — evidencia uma mudança estrutural: o diploma deixou de ser um fator diferenciador suficiente no processo de recrutamento.
Mercado global e pressão sobre o talento qualificado
A transformação é agravada pela globalização do trabalho digital. Com modelos remotos a consolidarem-se, as empresas passaram a recrutar talento à escala internacional, aumentando a concorrência e elevando os critérios de seleção.
Neste contexto, os perfis mais experientes tornam-se escassos e difíceis de recrutar, sobretudo em áreas como engenharia, DevOps e cibersegurança. Paradoxalmente, enquanto diminui a procura por juniores, intensifica-se a disputa por talento sénior.
Este desequilíbrio coloca pressão adicional sobre os sistemas de ensino e sobre os próprios candidatos, que enfrentam um mercado cada vez mais exigente e menos tolerante à curva de aprendizagem.
Um novo contrato entre educação e mercado
A perda de peso da licenciatura não significa o fim da formação académica, mas antes a sua reconfiguração.
O diploma deixa de funcionar como garantia de empregabilidade e passa a ser apenas um dos elementos num conjunto mais amplo de critérios, onde a experiência prática, a adaptabilidade e a literacia tecnológica assumem um papel central. Em paralelo, cresce a relevância de percursos alternativos, como certificações técnicas, formação contínua e programas intensivos orientados para competências específicas.
Neste novo enquadramento, a relação entre educação e mercado de trabalho entra numa fase de renegociação. As empresas exigem competências aplicáveis e imediatas; os candidatos precisam de demonstrar valor antes mesmo de entrarem no mercado.
A questão deixa de ser se a licenciatura é necessária — e passa a ser se, por si só, ainda é suficiente.