Marcelo Justino explica como a IA pode criar vantagem competitiva ao melhorar a experiência do cliente e evitar erros estratégicos nas empresas.
Marcelo Justino defende que “o verdadeiro diferencial da IA está na experiência do cliente, não na redução de custos”. Em entrevista conduzida por Bruno Perin para o Empreendedor, o Head de Arquitetura e Dados da IGA explica onde as empresas estão a falhar e como transformar a inteligência artificial em vantagem competitiva.
Marcelo Justino lidera a arquitetura tecnológica e de dados da IGA (Itaú Gestão de Ativos), estrutura criada em 2023 para reforçar o envolvimento com clientes numa estratégia de beyond banking. Com experiência em transformação digital e implementação de soluções baseadas em dados, acompanha o desenvolvimento de uma plataforma que deverá gerar cerca de 800 milhões de reais em valor para clientes até 2025. Nesta conversa, partilha uma leitura crítica sobre o uso da inteligência artificial nas empresas e os erros que continuam a comprometer o retorno do investimento.
Decidir com base na necessidade real do cliente
A criação de soluções tecnológicas continua, em muitos casos, a partir da capacidade interna e não da procura real do mercado. Marcelo Justino alerta para este desvio de foco, sublinhando a importância de uma cultura orientada por dados.
“A ideia começa muitas vezes daquilo que sabemos fazer bem e do resultado que esperamos obter, mas isso não garante que estamos a resolver uma necessidade real do cliente. O conceito de customer centricity obriga-nos a validar essas decisões com dados concretos”, explica.
O responsável recorre ao exemplo da Amazon para ilustrar esta abordagem. Segundo refere, o desenvolvimento do Prime não surgiu como resposta direta à concorrência, mas como forma de aumentar o valor percebido pelo cliente. Para as empresas, isto implica introduzir mecanismos de validação antes de avançar com investimentos relevantes em tecnologia.
IA como experiência e não como ferramenta de redução de custos
Um dos erros mais comuns, segundo o responsável, está na forma como a inteligência artificial é enquadrada dentro das organizações. A aposta excessiva na eficiência operacional pode comprometer a relação com o cliente.
“É frustrante quando um chatbot é criado apenas para reduzir chamadas ao call center. Pode reduzir custos, mas aumenta o atrito com o cliente e compromete a experiência”, afirma.
Marcelo Justino considera que muitas empresas continuam a associar a IA apenas à produtividade, ignorando o seu potencial para melhorar a experiência do cliente. Esta visão limitada pode traduzir-se em perda de receita e deterioração da confiança, especialmente em setores como o financeiro.
Para inverter esta tendência, defende o investimento em literacia em IA em toda a organização, da base à liderança. “Se não houver compreensão transversal da tecnologia, será difícil obter resultados consistentes”, acrescenta, deixando uma questão central: “Como podemos oferecer experiências diferenciadoras em escala através da IA e da hiperpersonalização?”
Novas competências para uma nova economia
A evolução da inteligência artificial está também a redefinir o mercado de trabalho, criando novas funções especializadas e exigindo competências mais avançadas na gestão de dados.
“Para ter sucesso consistente com IA generativa, é essencial ter um engenheiro de curadoria de dados, que garanta o contexto certo para cada resposta, e um engenheiro de IA focado em MLOps, para assegurar a monitorização e a precisão em escala”, explica.
Estas novas funções refletem uma mudança estrutural: a literacia em dados deixa de ser um diferencial e passa a ser um requisito. Para os líderes, o desafio passa por integrar estas competências e promover uma cultura organizacional capaz de acompanhar a evolução tecnológica.
Da experimentação à transformação do negócio
Para Marcelo Justino, o principal erro estratégico continua a ser tratar a inteligência artificial como um projeto tecnológico isolado, em vez de a integrar como parte da estratégia de negócio.
Empresas como Microsoft, Google ou Amazon demonstram, segundo o responsável, que o valor da IA resulta da criação de ecossistemas integrados, onde dados, plataformas e experiência do cliente estão alinhados. No caso da IGA, essa abordagem traduz-se numa arquitetura multiagente, capaz de coordenar diferentes sistemas de IA e gerar soluções personalizadas.
A medição de resultados assume também um papel central. O uso de metodologias como OKRs permite alinhar as iniciativas de IA com objetivos concretos, garantindo que o impacto se reflete em métricas de negócio e não apenas na adoção tecnológica.
No final, a questão deixa de ser tecnológica e passa a ser estratégica. “O erro mais dispendioso é tratar a IA como um projeto de TI. Deve ser encarada como uma transformação de negócio, com impacto direto na receita, na experiência do cliente e na vantagem competitiva”, conclui.
Num cenário em que a adoção da inteligência artificial se generaliza, a distinção entre empresas estará cada vez mais na forma como utilizam a tecnologia para criar valor real. A questão que fica, nas palavras do responsável, é direta: estarão as empresas a criar experiências memoráveis com IA ou apenas a automatizar frustrações?