Portugal atrasa-se na transformação dos RH, segundo a BCG, com menor foco em competências e desempenho face ao cenário global.
Portugal continua a privilegiar a estrutura e eficiência dos Recursos Humanos, ficando aquém das práticas mais transformadoras adotadas a nível global, segundo um estudo da Boston Consulting Group.
O papel dos Recursos Humanos está a mudar nas organizações, mas Portugal continua a avançar a um ritmo inferior nas dimensões mais estratégicas dessa transformação. De acordo com o estudo
Creating People Advantage 2026, desenvolvido pela Boston Consulting Group (BCG) em parceria com a World Federation of People Management Associations, 65% dos líderes empresariais consideram hoje os RH um motor direto de criação de valor e transformação.
Apesar desta evolução global, os dados revelam um desfasamento relevante no contexto nacional. Em Portugal, as organizações continuam a dar prioridade à organização interna e à eficiência operacional da função de RH, enquanto áreas críticas como o desenvolvimento de competências e a gestão de desempenho assumem menor expressão face às práticas internacionais.
Segundo Eduardo Bicacro, Managing Director & Partner da BCG em Lisboa, “os dados mostram que, em Portugal, as organizações continuam a dar prioridade ao reforço da estrutura e eficiência operacional da função de RH, um passo importante para consolidar bases. No entanto, num contexto de aceleração tecnológica e transformação profunda das competências exigidas, o verdadeiro diferencial competitivo estará na capacidade de desenvolver competências críticas e de gerir desempenho de forma consistente”.
O estudo, que recolheu mais de 7.000 respostas em 115 mercados, aponta também para ganhos concretos associados a funções de RH mais maduras. Organizações com maiores capacidades nesta área conseguem preencher funções críticas, em média, entre 17 e 18 dias mais rapidamente, além de registarem níveis mais baixos de rotatividade.
A adoção de inteligência artificial surge como outro fator relevante, mas ainda com impacto desigual. Cerca de 70% das empresas inquiridas afirmam já utilizar tecnologias de IA generativa, sobretudo em áreas como recrutamento, formação e reporting. Ainda assim, apenas 38% consideram que esta tecnologia tem atualmente relevância estratégica elevada, com preocupações relacionadas com privacidade e conformidade de dados a surgirem como principais obstáculos.
No que diz respeito à gestão baseada em competências, o estudo evidencia um défice de execução. Apenas 54% das organizações utilizam sistemas de correspondência entre competências e funções e 48% têm programas estruturados de requalificação. No total, apenas 11% afirmam ter uma arquitetura de competências plenamente integrada.
Para Eduardo Bicacro, este atraso pode ter implicações diretas na competitividade das empresas nacionais. “Num mercado de trabalho cada vez mais global e aberto, a capacidade de reconhecer mérito, proteger talento e acelerar competências será determinante para reforçar a competitividade das empresas portuguesas”, sublinha.
Os dados recolhidos em Portugal, com base em 85 respostas, confirmam assim uma tendência de consolidação operacional dos RH, mas também a necessidade de acelerar a sua evolução para um papel mais estratégico, alinhado com as exigências de transformação das organizações.