Investimento tecnológico europeu concentra-se nos principais mercados, deixando Portugal fora do núcleo estratégico do ecossistema.
O investimento tecnológico europeu continua concentrado num número restrito de países, reforçando um modelo de crescimento que tende a excluir mercados periféricos como Portugal, segundo o relatório
European Tech 2025: The Big Picture, publicado pela Tech.eu.
De acordo com o relatório da plataforma especializada no ecossistema tecnológico europeu, o investimento total atingiu 72 mil milhões de euros em 2025, com o Reino Unido a liderar de forma destacada, ao captar 21,5 mil milhões de euros, seguido da Alemanha (11,5 mil milhões) e da França (8,7 mil milhões).
Espanha surge apenas na sétima posição, com 3,1 mil milhões de euros, apesar de ser o segundo ecossistema a registar o maior crescimento. Portugal não integra o grupo dos dez principais mercados europeus.
Esta concentração é assumida no próprio relatório, que destaca que “o mercado europeu está cada vez mais ancorado por um pequeno número de hubs principais”, evidenciando uma centralização crescente do capital tecnológico nos maiores ecossistemas.
Paralelamente, o documento sublinha uma mudança estrutural no perfil do investimento. Em vez de um elevado número de rondas de média dimensão, o capital está a concentrar-se em operações de grande escala, dirigidas a empresas com presença nacional ou internacional. “O capital está a fluir para empresas que operam à escala nacional, continental e global”, refere a análise da Tech.eu, apontando para uma maior seletividade dos investidores.
Esta tendência representa um desafio adicional para ecossistemas como o português, onde a dinâmica de criação de startups é relevante, mas a capacidade de gerar empresas com escala europeia ou global permanece limitada. A crescente exigência de dimensão e relevância estratégica pode dificultar o acesso ao capital em fases mais avançadas.
O relatório identifica ainda uma mudança nas prioridades de investimento, com destaque para setores como infraestrutura digital, energia, inteligência artificial e semicondutores, áreas consideradas críticas para a competitividade e soberania tecnológica da Europa. Segundo a Tech.eu, estas tecnologias deixaram de ser apenas mercados de crescimento para assumirem um papel estratégico ligado à segurança, à resiliência e às cadeias de abastecimento.
No plano setorial, o fintech mantém a liderança, com 11,1 mil milhões de euros captados em 2025, seguido do software e da saúde digital. Ainda assim, o foco crescente em infraestruturas e tecnologias de base reforça a tendência para investimentos mais intensivos em capital e mais concentrados em geografias com maior capacidade industrial e financeira.
A análise do relatório é enquadrada por uma leitura mais ampla sobre o momento do ecossistema europeu. Cate Lawrence, senior writer da Tech.eu e autora do relatório, refere no prefácio que o setor entrou numa nova fase, marcada por maior complexidade e exigência estratégica, onde “a tecnologia se tornou inseparável de questões de geopolítica, segurança e resiliência”.
Neste contexto, o posicionamento de Portugal no mapa europeu da inovação tecnológica enfrenta um desafio estrutural: acompanhar um ciclo de investimento cada vez mais concentrado, seletivo e orientado para escala, num momento em que a competitividade já não depende apenas da capacidade de inovação, mas também da relevância estratégica no espaço europeu.