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Back Trabalhar mais horas não significa produzir mais

Trabalhar mais horas não significa produzir mais

Philipp Reisinger
Philipp Reisinger
Economy
Apr 24, 2026

Produtividade e horas de trabalho nem sempre estão alinhadas, alerta Philipp Reisinger, que aponta falhas estruturais na economia.
Neste artigo, Philipp Reisinger defende que o debate, no Brasil, sobre a redução da jornada laboral ignora o problema central: a baixa produtividade estrutural que impede as economias de gerar mais valor por hora trabalhada.

O debate sobre a reforma da escala de trabalho voltou com força no Brasil. A proposta de limitar o modelo 6x1 e ampliar folgas provoca reações intensas dos dois lados, como costuma acontecer quando o assunto envolve direitos trabalhistas, produtividade e papel do Estado na economia. O problema é que, no meio desse ruído todo, a pergunta mais relevante raramente aparece: produzir mais, em mais horas, ainda faz sentido?

O Brasil trabalha em média 39 horas semanais, acima da média mundial de 38,2 horas, segundo a OIT. Mais do que o Canadá (32 horas), a Alemanha (34 horas) e o Reino Unido (36 horas). Apesar disso, o país ocupa o 78º lugar no ranking de produtividade por hora trabalhada entre 131 economias avaliadas pela Conference Board, ficando atrás de Uruguai, Argentina e Chile. A produtividade brasileira por hora ficou em 21,44 dólares PPC em 2024, praticamente o mesmo patamar de dez anos atrás. Mais horas não estão a gerar mais resultado.

  • “Mais horas de trabalho não estão a gerar mais resultado — estão apenas a expor a falta de produtividade.”




A comparação que incomoda: países em desenvolvimento também trabalham muito

Quem defende a manutenção de jornadas longas costuma apontar para o modelo asiático como referência. A comparação tem base: Vietname (44h/semana), China (46h), Bangladesh (46,5h) e Camboja (47h) trabalham mais do que o Brasil e apresentaram crescimento médio do PIB entre 5% e 7% ao ano na última década, segundo dados do FMI e do Banco Mundial. À primeira vista, a correlação parece validar a tese: mais horas, mais crescimento.

Mas o dado isolado não sustenta o argumento. A análise da relação entre horas trabalhadas e crescimento económico revela um quadro mais complexo: países como Brasil, México e Argentina trabalham tanto ou mais do que várias economias asiáticas, mas crescem muito menos. O Brasil trabalha 39 horas semanais e cresceu em média 1,2% ao ano no período. México, com 45 horas, cresceu apenas 1,8%. A Argentina, com 35 horas, ficou em 0,4%. O que explica o crescimento asiático não são as horas de trabalho, mas sim os investimentos em infraestrutura, educação, industrialização e integração ao comércio global.

A Coreia do Sul ilustra bem essa transição. O país foi, durante décadas, símbolo de jornadas exaustivas. À medida que a economia amadureceu e o valor gerado por trabalhador aumentou, a jornada foi reduzida progressivamente. Hoje a média semanal está em 37,9 horas, abaixo do Brasil. O crescimento não veio das horas. Veio da produtividade.



O que já foi testado nos países desenvolvidos

Enquanto o Brasil discute se deve passar do 6x1 para o 5x2, outros países já testaram a semana de quatro dias com resultados documentados. A Islândia realizou, entre 2015 e 2019, testes em larga escala com mais de 2.500 trabalhadores, classificados como um “sucesso esmagador”: produtividade mantida ou melhorada na maioria dos casos, com redução significativa do stress e do esgotamento.

O Reino Unido conduziu em 2022 o maior teste do género até à data, envolvendo mais de 60 empresas e cerca de 2.900 trabalhadores. A receita manteve-se estável ou cresceu, o absentismo diminuiu e a maioria das empresas decidiu manter o modelo. Na Alemanha, 73% das organizações participantes em testes recentes indicaram intenção de continuar com a jornada reduzida. No Japão, a filial da Microsoft registou um aumento de 40% na produtividade durante a experiência.

Portugal apresenta também um caso relevante. Entre 2023 e 2024, um projeto-piloto com 41 empresas e mais de 1.000 trabalhadores revelou resultados consistentes: 95% das empresas avaliaram positivamente a experiência e mais de 80% decidiram manter o modelo. A ansiedade caiu 21%, a fadiga 23% e a dificuldade em conciliar vida pessoal e profissional reduziu-se significativamente. Em alguns casos, registaram-se ganhos de produtividade na ordem dos 20%.



O argumento de quem defende a escala atual

Quem se opõe à mudança apresenta argumentos concretos. Em setores como comércio, logística e serviços essenciais, a operação contínua depende de modelos que garantam cobertura permanente. Reduzir dias de trabalho sem reorganizar a estrutura pode aumentar custos, pressionar margens e, em alguns casos, levar à redução de postos de trabalho.

O impacto de uma alteração na jornada não é uniforme. A maioria dos testes foi realizada em empresas de serviços e conhecimento, onde a flexibilidade é maior. Generalizar estes resultados a todos os setores exige prudência.



O que o debate evita discutir

O problema central não é a escala de trabalho. É a estrutura que obriga a trabalhar mais para produzir menos. Uma economia com elevada carga fiscal, infraestrutura limitada, educação desigual e custos de financiamento elevados dificilmente melhora a produtividade apenas alterando a jornada laboral.

A fiscalidade tem um impacto direto nesta equação. O custo de contratação formal é elevado, criando incentivos que penalizam a expansão das empresas. Reduzir a jornada sem alterar este contexto estrutural pode significar tratar o sintoma sem resolver a causa.

A elevada taxa de informalidade em economias como a brasileira é, em grande medida, uma resposta a esse desequilíbrio. Qualquer reforma laboral que ignore este contexto arrisca-se a reforçar dinâmicas já existentes.

  • “Reduzir a jornada sem mudar a estrutura económica é tratar o sintoma, não o problema.”




O que fica para o empreendedor

Independentemente da evolução legislativa, a pressão sobre os modelos tradicionais de trabalho vai intensificar-se. Dados do estudo britânico mostram que cerca de 40% dos trabalhadores exigiriam aumentos salariais significativos para regressar a jornadas mais longas após experimentar a semana de quatro dias.

A tecnologia demonstra que é possível produzir mais em menos tempo quando os processos são bem estruturados. O modelo testado internacionalmente assenta numa lógica simples: manter o salário, reduzir o tempo e preservar — ou aumentar — a produtividade. Esta transformação não depende apenas de legislação, mas de decisões de gestão.

O debate sobre as escalas de trabalho expõe uma questão mais profunda: a dificuldade em equilibrar produtividade, custo e organização do trabalho. Mudar a escala pode ser um passo, mas o verdadeiro desafio está em criar condições para que cada hora trabalhada gere mais valor.

Philipp Reisinger
Philipp Reisinger
Philipp Reisinger é Colunista na àrea de Competências e Futuro do Trabalho. fundador e CEO da FIND HR, especialista em Executive Search e Transformação Digital, com mais de 15 anos de experiência a ajudar empresas a atrair, desenvolver e reter líderes capazes de gerar impacto real na era digital. Criou soluções pioneiras em recrutamento executivo 2.0, combinando tecnologia, dados e inteligência humana para conectar executivos digitais a organizações em crescimento. Com formação em instituições como o MIT, University of La Verne e FIA-USP, atua também como investidor e mentor de empreendedores. A sua missão é apoiar líderes e empresas a escalarem equipas, abraçarem a mudança e construírem culturas de alto desempenho.
All humans are entrepreneurs, not because they should start companies, but because the will to create is encoded in human DNA, and creation is the essence of entrepreneurship
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